Uma cerca,um curral ao longe, a travessia de um enorme pasto onde os animais amanheciam ao redor e ao final um bando de crianças que corriam para o meu abraço!... E ali ficávamos nós, numa troca de vida e energia . Corriam e vinham de todos os lados gritando e sorrindo como se o mundo dependesse daqueles momentos que passávamos juntos , eles e eu, dentro de uma humilde sala de aula , que de frondosa e altiva só tinha mesmo a grande árvore que se erguia ao pé da porta de entrada.
Sob ela quantas histórias contávamos , eu para elas e elas para mim: eu lhes trazia estórias de castelos e príncipes; elas contavam das colheitas e do leite no curral , das amoreiras em flor no terreiro de casa...Elas não sabiam, não poderiam nunca entender , que me ensinavam tanto quanto eu a elas.Aprendia pureza, ternura, humildade, vínculos que pés no chão e uma paisagem de verde intenso ventilavam em terno porvir de sonhos e quimeras.
E tudo começava em um caloroso e sonoro: "Bom-dia, professora! "
E foi aí o princípio de tudo. Foi quando comecei a construção da educadora , mãe e amiga.Ao longe, muito longe ouço ainda o som de um radinho em uma casinha distante, cantando as origens, o chão, a terra.
Sinto que a palavra, o contato humano eram muito mais fortes e eloquentes , e são hoje responsáveis por muitos verões em busca do mesmo sol e dos mesmos sentimentos em meus devaneios.Só quem os teve, só quem os viveu, sabe das lembranças significativas que tudo isto representa.
E... novos retalhos teimam em encaixar-se nesta reconstrução de vidas e épocas.
Assim, um clarão ao longe convida-nos a caminhar junto com eles...
...E aqui estamos nós, transpostos como que por encanto a um certo tempo, uma certa rua, onde senhoras e senhores transitam a pé pelas calçadas e de chapéus nas mãos , os cavalheiros cumprimentam as damas em um "bom-dia" respeitoso , verdadeiro; em outro ângulo alguns desfilam em suas carruagens , como os príncipes daquelas estórias infantis que se perderam nos tempos.
E o filme da vida continua...Paremos a fita. Façamos a reconstrução do "filme". Salvemos aquelas partes onde parávamos nas calçadas para um bate-papo, o filho sentava-se diante dos pais para indagar, buscar um conselho ou apenas contar como foi o seu dia.
Mas... O filme em preto e branco coloriu-se e na busca de novas cores esqueceu-se de que há coisas que não se deve perder ou haverão de desbotar-se na poeira de um tempo em branco e preto. E nós educadores, escritores, engraxates ou garis temos o dever de resgatar o bom e o belo. Talvez não tenhamos respostas imediatas , mas a ciranda das palavras haverá de retomar a coerência e buscar as mãos que irão fechar o círculo e brincar de roda outra vez.
Então sentiremos a cada dia, a cada amanhecer, o valor da palavra, do bom-dia ao professor, aos filhos, à família, ao porteiro do prédio, à madame que agora passa com seu cachorrinho pela calçada , nessa caminhada matinal que nos leva ao trabalho todos os dias...
Salvemos a palavra , recuperemos o abraço, retomemos as rédeas de nossa cultura, na missão urgente e cuidadosa de resgatar com eles os valores que tornam o homem forte e destemido , valente e ao mesmo tempo terno e generoso .
Olha para mim, toma a minha mão, vamos caminhar juntos e enfrentar o medo que temos um do outro. Você é minha continuidade; eu sou o resgate de suas forças puramente humanas .
"Bom-dia, professora!" Recomecemos assim a nossa história.
(texto premiado p/ ABL e F.D. -2005)
Anna Lucia fiquei emocionada com seus textos! Adimiro sua dedicação pela família e como consegue repassar isso para um texto tão bem feito e gostoso de ler! Parabens!
ResponderExcluirEssa é minha mae!!!
ResponderExcluirHehehehee!!!
Bjs mae te amo!
Quantas lembranças!
ResponderExcluirAté vale a pena ser PROFESSOR.
Ssaber que um dia vc foi importante na vida dessas crianças, levando-as a descobrirem o lado bom da vida, embora na simplicidade, fazê-las, e também se sentir feliz, e gratificada.
Parabéns Professora!